BRASÍLIA – Relatório do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) afirma que o governo do Maranhão tem se mostrado incapaz de conter a
corrupção, as torturas e outras formas de violência no Complexo Penitenciário
de Pedrinhas, o único do estado. Por isso, o órgão quer tomar a frente do caso
e atuar mais intensamente no presídio, para tentar evitar outras mortes e
desrespeito aos direitos humanos no local. O documento foi elaborado após
inspeção realizada no último dia 23 pelo CNJ e pelo Conselho Nacional do
Ministério Público (CNMP). Foram constatadas precariedade das instalações,
violência sexual contra parentes de presos e maus-tratos contra os detentos.
Neste ano, o presídio foi palco de 60 mortes.
“O Estado tem se mostrado incapaz de
apurar, com o rigor necessário, todos os desvios por abuso de autoridade,
tortura, outras formas de violência e corrupção praticadas por agentes
públicos. Assim, indicamos a necessidade de atuação mais intensa deste Conselho
com o objetivo de motivar as instituições locais para o cumprimento das
recomendações anteriores deste Conselho, do CNMP e da própria OEA (Organização
dos Estados Americanos)”, diz o documento.
O relatório leva a assinatura do juiz
auxiliar do CNJ Douglas Martins, que esteve no presídio em companhia do
conselheiro do CNMP Alexandre Berzosa Saliba. O documento foi entregue ao
ministro Joaquim Barbosa, presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal
(STF).
“O número excessivo de mortes em um
único ano é fato revelador da necessidade da comunhão de esforços para
organizar o sistema prisional do Maranhão”, concluiu o juiz. “Verificou-se que
as unidades estão superlotadas e já não há mais condições para manter a
integridade física dos presos, seus familiares e de quem mais frequente os
presídios de Pedrinhas”, arrematou.
O juiz se mostrou especialmente
preocupado com a falta de vagas em unidades de saúde para as internações
cautelares e para o cumprimento das medidas de segurança. Por essa deficiência,
o poder público encaminha doentes mentais para o sistema prisional. “Este fato
por si só já constitui grave violação de direitos humanos, mas poderá ter
outras consequências, tais como eventual extermínio dos doentes mentais”,
atesta Martins.
Ele contou que, antes de entrar em cada
pavilhão, era necessária negociação com os líderes das facções. As grades das
celas foram todas destruídas, comprometendo a segurança dos visitantes e
deixando os presos todos misturados. “Esta impossibilidade de separação dos
presos inviabiliza a garantia de segurança mínima para os presos sem posto de
comando nos pavilhões”, constatou o juiz.
Ele relatou que as visitas íntimas são
todas realizadas nas celas, em público. “Essa circunstância facilita o abuso
sexual praticado contra companheiras dos presos sem posto de comando nos pavilhões”,
diz o documento. Segundo Douglas Martins, as familiares e companheiras de
detentos são frequentemente estupradas por outros presos com mais poder no
local.
O juiz ficou impressionado com a
“extrema violência” das facções que dominam o presídio. Martins conta que o
presidente do sindicado dos agentes penitenciários mostrou a ele um vídeo no
qual aparece um preso com a pele da perna dissecada, “expondo músculo, tendões,
vasos e ossos”. Em seguida, ele é morto por outros detentos.
O Complexo Penitenciário de Pedrinhas
possui vários estabelecimentos prisionais em que está recolhida a maior parte
dos presos do Maranhão. Algumas cidades que enviam presos para o complexo estão
localizadas há mais de 800 quilômetros da capital. Segundo o relatório, a
grande concentração de presos, especialmente a mistura de detentos do interior
com os da capital, foi o principal fator para a criação de facções no sistema
prisional maranhense.
Em novembro de 2010, ocorreu em uma das
unidades de São Luís uma grande rebelião, com 18 presos mortos, sendo três por
decapitação. Em fevereiro de 2011, na cidade de Pinheiro, a 80 quilômetros da
capital, seis presos detidos na delegacia foram mortos durante uma rebelião,
sendo três decapitados.
Em seguida, o CNJ inspecionou a
delegacia e constatou “superlotação, estrutura precária, comando de facções,
más condições de higiene, falta de iluminação, alimentação inadequada,
servidores desqualificados para as funções e péssimas condições de segurança”.
Em outubro deste ano, houve outra
rebelião na Casa de Detenção no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. O
resultado foi a destruição de várias celas, nove detentos mortos e 30 feridos.
Em seguida, o CNJ e o CNJ fez inspeção em unidades do presídio e no hospital
que atende os detentos. Depois disso, houve outras quatro rebeliões em unidades
diferentes de Pedrinhas, com a morte de outros sete presos.

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