Enquanto a maior parte dos principais indicadores econômicos tem se
deteriorado nos três primeiros anos do governo Dilma Rousseff, o mercado de
trabalho permanece uma exceção, de acordo com dados de diversas fontes,
estatais e privadas.
A renda da população teve um crescimento real (acima da inflação) acumulado
de 2,6% em 2011, 3,2% em 2012 e outros 3,2% no ano passado, segundo o IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Na média anual, portanto, o ritmo de crescimento da renda no governo Dilma é
de 3%, o que dá mais que o dobro do registrado durante o período do seu
antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva (1,3% ao ano). Isso aconteceu porque, no
primeiro ano do ex-presidente, a renda caiu mais de 10%, puxando para baixo a
média dos seus oito anos.
Não é possível comparar com o governo Fernando Henrique Cardoso porque o
IBGE mudou a metodologia da pesquisa em 2002.
A série histórica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos) em São Paulo, no entanto, é mais longa. Ela registra
que, na média anual, a renda no governo Dilma cresceu mais do que nos dois
mandatos de Lula e do que no segundo de Fernando Henrique Cardoso. Por outro
lado, avançou em ritmo mais lento do que na primeira gestão de FHC e no período
Itamar Franco.
Sempre que cito algum dado sobre o crescimento da renda, boa parte dos
leitores diz que seu próprio salário não subiu e que, portanto, os dados estão
errados ou manipulados.
Isso acontece provavelmente porque tais leitores devem ser de classe média.
O aumento real da renda praticamente só ocorreu na classe baixa (e
provavelmente na altíssima, que tem tão pouca gente e por isso não aparece nas
pesquisas). Um estudo do próprio IBGE, por exemplo, mostrou que o rendimento da
população com nível superior subiu só 0,7% de 2003 a 2012, enquanto o dos que
têm até oito anos de estudo aumentou 37%.
Uma pesquisa da consultoria Mercer,
citada neste blog,
constatou que, nas grandes empresas privadas do país, somente os profissionais
de nível operacional (o mais baixo da hierarquia) tiveram aumento salarial
acima da inflação em 2013.
Para quem não acredita em pesquisas, nem estatais nem privadas, sugiro fazer
o seu próprio levantamento. Tente se lembrar de quanto uma faxineira, um
pedreiro ou um pintor cobrava pelo dia há três anos e veja quanto eles cobram
hoje. Pergunte ao síndico do seu prédio qual foi o aumento dos porteiros. Caso
ande de ônibus, pergunte ao cobrador qual foi o dissídio da categoria.
Desemprego
A
taxa de desemprego
é outro indicador de que o mercado de trabalho continua aquecido. Ela ficou em
5,4% em 2013, segundo o IBGE, sendo o menor valor desde o início da série
histórica da Pesquisa Mensal de Emprego, em 2002.
O Dieese, que usa outra metodologia, apontou que o desemprego foi de 10,4%
em São Paulo no ano passado, a menor desde 1990.
Uma observação a ser feita é que, nos últimos meses, o desemprego tem caído
não por causa o aumento do emprego, mas porque o número de pessoas que procuram
trabalho está diminuindo.
Segundo o IBGE, em março de 2002, 76% da população que estava fora do
mercado dizia não ter interesse em trabalhar. Hoje, 91% afirmam não querer
emprego. Não se trata necessariamente de preguiça. Entre essas pessoas, há
aposentados e menores de 18 anos, além de donas de casa.
Uma hipótese é de que o envelhecimento da população e o desejo de cada vez
maior dos jovens de estender os estudos podem ter contribuído para o aumento da
população que não deseja trabalhar. De qualquer maneira, se elas não
querem um emprego, não podem ser chamadas de desempregadas.
Quanto menos pessoas estão disponíveis para o mercado, maior a chance de os
trabalhadores conseguirem reajustes, pois a disputa por cada vaga fica menor. A
população chamada de “nem-nem”, que não estuda nem trabalha, contribui,
indiretamente, para o aumento da renda dos demais.
Nos próximos meses poderemos ter uma noção melhor do mercado de trabalho,
quando saírem os próximos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua (chamada de Pnad Contínua), bem mais ampla que a atual
Pesquisa de Emprego. Ela cobre mais de 3.000 cidades do país, enquanto a atual
abrange apenas seis regiões metropolitanas.
Perspectiva
O bom momento do mercado de trabalho é ameaçado pelo menos por dois fatores.
Primeiro, a alta do dólar torna o preço das mercadorias importadas mais caro.
Dessa forma, os assalariados tendem a perder poder de compra.
Em segundo lugar, por causa do aumento da inflação, o Banco Central tem
elevado sua taxa básica de juros. Com isso, as empresas ficam menos estimuladas
a investir na produção (uma vez que podem ganhar mais com aplicações
financeiras) e dessa forma a geração de empregos fica comprometida.
O aumento de juros também afeta o consumo. O crediário fica mais caro e, se
o as empresas vendem menos, tendem a contratar menos ou até demitir
trabalhadores.
O lado positivo é que o real mais fraco tende a ajudar a indústria nacional
na competição com a estrangeira – mesmo que as máquinas importadas fiquem mais
caras, os salários ficam mais baixos quando medidos em dólares. A questão agora
é se o ganho das empresas com o câmbio vai ser suficiente para traze
investimentos e compensar as incertezas do mercado e o custo gerado pelo
aumento dos juros.
* Atualização:
Notei que o IBGE destacou no texto de apresentação da Pesquisa Mensal de
Emprego um número diferente do que eu usei. A instituição diz que a renda média
no ano passado foi 1,8% maior do que em 2012. Ela somou a renda média de todos
os meses de 2013 e dividiu por 12. Fez o mesmo com 2012. Depois, dividiu o
resultado de 2013 pelo de 2012.
Já eu optei por um caminho diferente. Calculei quanto a renda aumento de
dezembro de 2012 para janeiro de 2013, de janeiro para fevereiro etc, até
chegar a dezembro de 2013. O resultado foi uma expansão de 3,2% acumulada no
ano passado.
De qualquer modo, as duas formas de cálculo levam à conclusão destacada
nesta postagem, de que o aumento médio anual da renda nos três primeiros anos
do governo Dilma (de 3% ao ano no meu cálculo e 2,9% no do IBGE) foi superior
ao registrado no segundo (3,1% no meu cálculo e 3,4% no do IBGE) e no primeiro
mandato (-0,5% e -2,1%) de Lula.